III COE

ÚLTIMA CHAMADA!

A 3.ª edição do Concurso Online de Escrita tem início marcado para a próxima Quarta-feira, dia 30 de Maio, com o lançamento do I Desafio...

Ainda há tempo: inscrições até Domingo - 27 de Maio.


Informações através do endereço: c.escrita.online@gmail.com
II COE - V Desafio
Texto vencedor por Marianne:

Encontrei Deus numa tarde de chuva. Combinámos o encontro uns dias antes e Deus foi pontual. Imaginava-O de outra forma. Imaginava-O mais velho, mais grisalho, mais marcado por milénios de existência. Percebi rapidamente que andei a vida inteira iludida com imagens baseadas em coisa nenhuma. Apesar de ser diferente do que eu imaginei, a serenidade com que me recebeu foi a mesma que fui ensinada a reconhecer-Lhe.
Mantive-me de pé à Sua frente, mais por não saber o que fazer do que por respeito ou medo. Acolheu-me num abraço silencioso, de carinho e empatia. Pediu-me que me sentasse e que perguntasse o que quisesse.
- Se Deus é bom, como é possível que haja tantas coisas más no mundo?
- Rejo-me por um princípio bastante simples: apenas experimentando o mau se pode apreciar o bom. O mundo não será nunca um paraíso isento de maldade. As pessoas não são todas boas e nisso eu não interfiro. Limito-me a aceder a alguns pedidos. Não a todos, porque há pedidos que não fazem sentido. Existem guerras porque as pessoas as fazem. Há quem mate e quem morra e sempre foi assim. Imagina um mundo sem morte. Insustentável, não te parece?
- Porque é que permites que morram crianças?
- Quem julgas tu que ensinou a Lavoisier que nada se cria, nada se perde, tudo se transforma? Há crianças que morrem porque precisam de morrer. Algumas para ensinar os pais a lidar com coisas maiores do que eles. Outras porque estão destinadas a regressar a algo ainda maior. Todas voltam a viver, não te preocupes.
- Porque é que nem todos os criminosos pagam pelos crimes que cometem?
- Tal como é insustentável que exista um mundo sem morte, também é impossível que haja um mundo sem crimes. Porque os crimes são cometidos contra alguém e esse alguém acaba a chamar por mim. Um mundo sem maldade, sem crimes e sem morte é um mundo onde Deus não é necessário.
- Perdoas-nos?
- Perdoo. Mataram-te porque algo pior estava a matar-te. Acabarias junto a mim, fosse de que forma fosse. Não ias morrer sozinha e pediste ajuda. Quem te amava ajudou-te a morrer porque estás melhor assim. Subiste ao céu, vieste para junto do Pai, tal como te ensinaram. O teu destino era este: ser morta por quem te deu vida. Hás-de voltar para eles. Nada se cria, nada se perde...
II COE - IV Desafio
Texto vencedor por Marianne:


Esta cidade adormece quente. É Agosto e há turistas por todo o lado. Deambulámos sem rumo durante horas, eu imersa em mapas que não consegui entender. Brincas comigo por causa dos mapas que insisto em traduzir e que nunca nos levaram a lugar nenhum. Desistimos e voltamos ao hotel, um sítio simples no centro da cidade. Anoiteceu devagar. No horizonte há ainda um tom diáfano que relembra o dia que agora se acaba. Subimos pela escada em silêncio. Subo à tua frente. Sobressalto-me com a tua mão na minha perna, não um toque casual e sim um impulso forte. Impedes-me de avançar para o degrau seguinte. Obrigas-me a ficar de frente para ti, a parede nas minhas costas. Encostas-te a mim e sinto-te duro, voraz. Beijas-me sôfrego, como se quisesses engolir-me sem perder tempo. Percorres o meu corpo com as tuas mãos e, entre beijos, sussurras-me ao ouvido “quero-te agora”. Olho em redor e não se vê ninguém. O hotel está silencioso, os restantes ocupantes certamente perdidos entre jantares pela cidade. Não resisto ao sabor dos teus beijos, esse gatilho armadilhado que sempre foi o meu carrasco. Já me esqueci de onde estou e não quero saber de nada. Desces devagar, a tua lingua pelas minhas pernas vestidas com uns calções cúmplices. Sentes-me quente, a tremer. A minha respiração acelera à medida que a tua língua arrisca círculos dentro de mim. Não precisarás de me despir, bastará que sejas ágil a manobrar tecido. Sei que és. Quando me sentes vir pela primeira vez abrandas, dás-me um segundo para que recupere e operas uma ágil troca de posições. Agora sou eu, dona e senhora de ti, que habitas duro a minha boca. Sei o que tenho a fazer e provo-te que aprendi a lição. Não deixo que te venhas porque quero guardar o momento para partilharmos a dois. Viras-me de costas para ti, sinto a parede quente no meu peito. Agarras-me o cabelo sem meiguice e penetras-me sem cerimónias. Danças dentro de mim num ritmo feroz. Ouves-me calar orgasmos e pedes que me venha para ti. Faço-te a vontade uma e outra vez, enquanto tu te demoras até explodir.
Acordo sobressaltada. O relógio diz-me que é demasiado cedo para me levantar. O meu corpo diz-me que precisa do teu agora, fora de sonhos e fantasias. Acordas duro dentro da minha boca. Fazes-me vir mais uma vez.
II COE - III Desafio
Texto vencedor por Marianne:

Isaura tem oitenta e sete anos felizes. As rugas sulcadas no rosto contam histórias que guarda intactas na memória. Isaura foi feliz na sua infância dourada, na universidade de medicina onde entrou para revolucionar uma época, no casamento arranjado pelos pais. Foi feliz grávida por cinco vezes e duplamente feliz nas treze vezes que se tornou avó. Foi incomparavelmente feliz nas cartas que trocou durante anos com Vasco, colega de faculdade partido para África na altura em que podiam ter casado. Não fora ele ter ido exercer para Moçambique e Isaura teria contrariado os pais, recusado casar com Almeno e sido seguramente feliz junto daquele amor que lhe trazia arritmias ao coração.
Hoje, oitenta e sete anos depois, deixou de ser dona do seu tempo, da sua vida, da sua história. Entrou-lhe pela porta o filho Manuel e pediu-lhe que preparasse uma mala com as suas roupas, disse-lhe que levasse dois ou três livros, que não se esquecesse dos seus santinhos. Isaura quis saber ao que iam, que urgência era aquela. Manuel, com a doçura que sempre o traduziu, explicou que Isaura não merece passar sozinha os dias que lhe restam. Nem ele nem os irmãos são capazes de tratar dela como merece, por isso escolheram juntos um lar. O melhor de todos, sublinha Manuel, a mãe vai gostar certamente.
Os filhos de Isaura julgam que aos oitenta e sete o prazo já terminou há muito e acham melhor dar à mãe uma suposta tranquilidade que ela não quer.
Isaura demora-se na escolha do que há-de levar. Arruma a mala sem grande cuidado, angustiada por sentir-se arrancada à sua vida. Manuel insiste que têm que ir, combinou com a directora do lar às quatro e já são três e meia. Isaura sabe que não voltará a ver esta casa, mas não pode partir sem a caixa onde guarda as centenas de cartas escritas por Vasco. Estão naqueles pedaços de papel todas as razões pelas quais Isaura foi feliz numa vida que não chegou a viver. Isaura relê as cartas todas as tardes e isso basta-lhe para sentir tudo novamente. Cinquenta anos depois, continua apaixonada pelo homem que nunca teve e sabe que tem nas cartas a sua riqueza maior. Carrega no peito a saudade cortante de quinze anos sem Vasco, falecido em Moçambique sem que se reencontrassem, mas tem naquelas cartas o sangue que obriga o seu coração a bater.
II COE - II Desafio
Texto vencedor por Brighid:

Era uma coisa pouca quando o viu pela primeira vez, uma mãozinha de gente, mal chegava a encher-lhe os braços. Logo quando ela o queria forte e luzidio tinha vindo assim tão sumido. Como se pudesse de repente voltar a não ser.
Cuidou-o. Cuidou dele como se faz com os bichos pequeninos, com muito cuidado e desvelo para não desfazer o milagre. Sorriu, chorou, alimentou, embalou e confiou. De dia e de noite. Trabalhou depressa e dormiu sem nunca fechar os olhos. Quando ele lhe sorriu pela primeira vez, sonhou…
Havia de fazer dele um príncipe. Um homem príncipe. Um homem bom. Havia de ensinar-lhe as lendas, as luas e as marés. Oferecer-lhe os cheiros, as cores e o canto que planície tem. Contar-lhe os mistérios da vida e a segurança na morte. A confiança de se ser assim - pleno. A capacidade de temer apenas a própria consciência e a voz que que habita as almofadas de menino.
Um dia, já ele corria pelos seus pés, levou-o a ver umas estrelas que estavam penduradas numa noite perto de onde moravam. Deitaram-se na erva que trazia ainda o calor da tarde e ficaram fixos ao eixo da terra. A brincar às rodas com a lua. Primeiro ele não se calava. O que era aquele barulho? E aquela sombra mais além? Depois sossegou…
- Escuta aquele piar. Está ali uma coruja das torres. Se vier alguém, ela avisa. Ouve agora mais longe. É um sapo, come os insectos que nos picam. Aquele ali a brilhar? É um pirilampo. Ajuda-te a ver o caminho. Se ele fugir e te perderes? Segues a Estrela Polar, indica o norte. Essa, a que segura o papagaio da ursa menor. Calaram-se.
- Mamã, o silêncio serve para quê?
- Para seres capaz de te ouvir se estiveres confuso e para eu te ouvir se me chamares.
- Pois, tu serves para me encontrares. E eu, mamã? Eu sirvo para quê?
Ainda hoje, no burburinho dos dias gastos pelo nada, quando vai respirar o sono do seu menino homem ela surpreende a resposta que a deixa dormir. Será verdade que esse não é o seu único propósito, mas continua a dizer-lhe sempre muito baixinho:
- Tu? Tu, meu amor, foste feito para o meu coração bater.
II COE - I Desafio
Texto vencedor por Marianne:

A porta abria-se devagar, não entrava luz. Tinhas sempre cuidado para que eu não desse por ti. Sentavas-te aos pés da minha cama, fazias-me festas no cabelo. Eu não chegava a adormecer profundamente porque sabia que havias de ir ao pé de mim. Fazias o mesmo todas as noites. Mal ouvia a tua respiração e tentava que não ouvisses a minha. Entrelaçavas os dedos no meu cabelo, passavas-me a mão na testa, nas bochechas e nos lábios. Ouvia o roçagar do tecido. Punhas a mão dentro das calças do pijama e tocavas-te enquanto, com a outra mão, me afagavas o cabelo. Sentia-me encolher como um caracol na casca, mas não me mexia. Depois ajoelhavas-te à minha frente, duro, enorme, continuavas a tocar-te e chegavas a ponta do pénis aos meus lábios. Eu fingia dormir. Puxavas-me o queixo para baixo e abrias-me a boca, que logo preenchias com aquela parte de ti. Agarravas-me o cabelo com mais força e fazias tu os movimentos de que precisavas para gostar daquele momento, que repetias todos os dias. Quando terminavas limpavas o que houvesse a limpar, davas-me um beijo na testa, ajeitavas-me os lençóis e dizias baixinho “até amanhã”. Eu encharcava a almofada com lágrimas que não sabia porque me corriam pela cara.
De manhã acordavas-me com beijos, atiravas-me ao ar, tratavas de mim. Dizias que me amavas e partias feliz.
Eu não entendia. Aos cinco anos não se entendem rituais que não nos explicam. Não se sabe que um pai não pode fazer isto a um filho. Não se sabe que é errado, mas sente-se que algo não bate certo. Eu não sabia. Odiava cada momento desde que me deitava até que acordava na manhã seguinte, mas não sabia porquê. Cresci. Comecei a entender. E a odiar tudo em ti. Foste o pai que me violou. Que me obrigou a fazer coisas que não percebia mas que agora sei quão doentias são. Odeio que pensasses que não me fazias mal nenhum. Odeio que me usasses para teu prazer. Eu, que era teu filho e tinha apenas cinco anos, acolhia na boca toda a tua insanidade, noite após noite. Odeio que vivas. Que sejas meu pai. Odeio que tenhas pensado que podias usar-me para ter o prazer que não conseguias em mais lado nenhum. Foi por isso que hoje, 20 de Março de 2012, te matei com um tiro no coração.